sexta-feira, 24 de outubro de 2014

Querido Líder - MQ



Não há dias diferentes
Todas as horas são iguais
A rotina dos descrentes
As realidades banais

Palavras atrás de palavras sem sentido
O hábito que destrói o querer
Assola as quimeras de menino
A estupidificação do ser

Perco toda a dignidade
Neste cubículo escondido
Deixei de sentir vontade
Dou-me por eterno vencido

Vou falando em desassossego
Engolindo-o sem vaidade
Vou inventando um emprego
Sonhando com a liberdade

Vou uivando aos céus
Promessas de divindade
Procurando em Deus
O caminho da verdade

Solte-se o açaime do medo
Abra-se a porta encerrada
Faça-se luz neste degredo
Liberte-se a alma penada

Corroí-me por dentro
Este calvário demente
Sinto que perco o meu tempo
Nesta guerra sem frente

Nos olhos da impostura
Sorrisos desenvergonhados
Governa de forma dura
Os bem-aventurados

Chamem a cavalaria
Que a coisa vai azedar
Exaltada hipocrisia
Quando ele está a passar

No cruzeiro deste tormento
Vou alimentando a crença
Que um dia num momento
Vou curar esta doença

Avé César, Avé
Gritamos de braço estendido
Não inspiras qualquer fé
Não passas de um bandido

Ó líder poderoso
Chefe do nada vazio
Não passas de um porco vaidoso
Vai para a puta que te pariu


Querido Líder by MQ

quarta-feira, 17 de setembro de 2014

Lágrima - MQ


Uma lágrima percorre-te o rosto
Palmilhando campo aberto,
De fio a pavio
Paulatina, passo a passo

Sai em marcha nupcial
A caminho do altar
Ave Maria de Schubert,
Afogada em santa culpa

Procissão de água benta
Nossa senhora dos prantos
Vem desaguar no teu rego
Absolvida de pecado

A galope compassado
Viaja perdida,
Desmaiada,
Como a chuva quente deste verão...


Lágrima by MQ

domingo, 14 de setembro de 2014

Traffic signals - Charles Bukowski


they disgust me
the way they wait for death
with as much passion
as a traffic signal.

these are the people who believe advertisements
these are the people who buy dentures on credit
these are the people who celebrate holidays
these are the people who have grandchildren
these are the people who vote
these are the people who have funerals

these are the dead
the smog
the stink in the air
the lepers.

these are almost everybody
finally."

Traffic signals by Charles Bukowski

Ausência - MQ


Manhã submersa em madrugada
Pedra fria sem sentidos
Nós os dois de mão dada
Obviamente demitidos

A tua história não condeno
Escurece o céu de fim de tarde
Provo do teu doce veneno
Recheado de meias verdades

Não tem lógica este destino
Amortalhado em falsas esperanças
Não merece o tempo perdido
Não sacia as nossas crianças

Não tem sentido esta lei cega
Não quer saber da alquimia
Esquece-se dos sonhos perdidos
Esconde-se na noite fria

Sentas-te à lareira,

Contas-me um segredo
Aconchegas-te em mim
Revelas-te em forma de medo
Sinto-te perto do fim


Ausência By MQ

Tempo - MQ


Vivemos presos ao tempo,
O tempo é a prisão dos tempos
Sem ele não vivemos
Com ele sobrevivemos
 
Não falo sobre o relógio
Das horas, dos minutos, das estações
Falo da inquietação ansiosa
Falo do desassossego
 
Falo da súbita vontade de gritar
De espernear por desejar
Por querer fugir e ser livre
Livre das amarras do Momento
 
Falo das masmorras da alma
Dos limites onde nos encerramos
Aprisionados nos dias
Em quadras enxadrezados
 
Ontem fui servo do tempo em Cristo
Antes fui cidadão da Babilónia
Hoje sou sonhador e poeta
Amanhã serei o pó de uma ampulheta
 
 
Tempo by MQ

sábado, 15 de março de 2014

Tocaram os sinos - MQ



Por vezes penso que a presença da troika em Portugal pode ser comparada à Peste do Camus. Vou a sair de casa e tropeço num rato morto. Qual Dr. Bernard Rieux encharcado em muscarina.
Vá tem calma. Tranquilidade! Tranquilidade que somos um país de poetas. Poetas e fadistas. "Cantar o Fado? Nunca! o Fado é o veneno da raça!" "Um por todos e todos contra o Fado". Que venha a epidemia que cá estaremos para curar as "chagas de carácter social"...
Algo está para acontecer ao meu país. Algo de grandioso. Esquece a "Mensagem" que essa perdeu-se no caminho marítimo para a India...
É difícil encontrar a saída do poço onde este menino com mais de 800 anos caiu...De Zamora a Roma...a Lisboa (deixa-me rir). Do Minho até Timor...
Vou troteando "A Portuguesa" enquanto me debruço sobre a possibilidade de ir dormir a sesta...
 
Acabou o arraial...
 
 
Tocaram os sinos by MQ

quarta-feira, 5 de março de 2014

Vicio III - MQ


Passava as noites naquele antro de insetos de frustração embriagada. A catedral do vício, o pináculo da má vida ou o poço do elevador da existência. Servia-me de um, dois, dez copos de whiskey barato a preço de ouro e dialogava com putas, numa linguagem pobre e apodrecida. Ali sou condenado à morte lenta e desafio a verdade com pinceladas de veneno.
Depois ia para casa dormir. Dormir e escrever. Escrever este conto.
Escrever, compor e redigir o melhor de todos os contos alguma vez escrito. Cru e abrutalhado. Frio.
Escrevo até me doerem as mãos, as costas, o peito e o ser. Até me doerem os pés de tanto palmilhar ruínas.
Escrevo uma obra-prima que vai diretamente para o topo dos contos mais lidos e decorados de sempre. Diretamente para o caixote do lixo. Diretamente para o além. Onde nunca chegou a ser.
Quero voltar para cama e dormir até às três da tarde, quatro da tarde, cinco da tarde. Jantar de micro-ondas à luz das velas. Seia dos pobres de espirito. Jantarada acompanhada a bagaço rançoso. Manhoso bagaço caseiro.
O vício resiste em mim. Devora-me o amago. Viola-me as entranhas. Sodomiza o livre arbítrio.



Vicio III by MQ