quarta-feira, 10 de outubro de 2012

O Livreiro de Cabul - Asne Seierstad‏



No contexto da guerra no Afeganistão, Asne Seierstad, jornalista e correspondente de guerra de nacionalidade norueguesa, viaja até Cabul para seguir de perto os costumes e intimidade de uma família afegã no quotidiano - a família de Sultan Kham, o livreiro mais importante e conhecido do seu país. Um homem que, apesar de guerras, invasões e trocas de regimes continua, desde há trinta anos, a dedicar-se, de corpo e alma, a um dos negócios mais antigos do Mundo.

Este livro traz-nos de forma simples, numa escrita quase romanceada, o choque e a realidade sociocultural entre as sociedades ocidentais e os países do Médio Oriente.

Envergando uma “burqa”, Seierstad junta-se ás mulheres da família, seguindo de forma atenta os seus dramas, segredos, amores e desejos. Aproveita também para seguir os homens e acompanhar atentamente a tarefa de importação de livros em cenário de guerra, inspirando o ar seco das montanhas do Afeganistão.

Livro excelente para conhecermos uma realidade cultural oposta à nossa, aproveitando relatos de personagens reais e fidedignos.

Nota: 4

terça-feira, 9 de outubro de 2012

Cosmopolis



O mundo é gerido pelo capitaslismo selvagem dos homens pequenos, pelo liberalismo desrugulado, pela substituição dos valores morais, por valores financeiros e pela revolução tecnológica.

Num contexto de visita presidencial e violentas manifestações na cidade de Nova Iorque, um jovem homem poderoso mas decadente, moribundo e autodestrutivo, domina o mundo e mexe cordelinhos dentro de uma limusine, onde come, bebe, urina, escolhendo o destino dos outros como marionetas, sem saber (ou talvez não) que caminha para a guilhotina, caindo em espiral dentro do holocausto financeiro.

Depois de ler o livro "Cosmopolis" do Don DeLillo, há alguns anos atrás, confesso que fiquei um pouco desapontado com sua passagem ao grande ecrã pela mão do criativo David Cronenberg. Nada de especial é acrescentado. Apenas consigo retirar daqui uma das muitas interpretações dessa obra magnânime. 

Sublinho a prestação genial de Robert Pattinson representando o multi-milionário Eric Packer. Consegue descolar-se perfeitamente do seu papel de Jasper em Twilight (um dos meus maiores receios antes de ver o filme apesar do actor já o ter conseguido fazer em Remember Me, Bel Ami e em Water for Elephants). 

Ressalvo também as pequenas, mas estimulantes, aparições de Paul Giamatti e Juliette Binoche, peões do tabuleiro de xadrez desconcertante criado por Cronenberg.

Apesar de tudo vale a pena espreitar.

Nota: 3 

segunda-feira, 8 de outubro de 2012

Palácio da Lua - Paul Auster‏



Sou suspeito quando falo de algum livro de Paul Auster, uma vez que li todos os livros traduzidos para português (vou ter a honra de vos apresentar neste espaço todos eles) e vi também os seus filmes (argumento e realização). Considero-me um fã do estilo e do autor.

Quando comprei este "Palácio da Lua" já levava uma bagagem considerável da obra deste escritor norte-americano que, volta não volta, visita o nosso país.

Esta história é a mais completa e pormenorizada de Auster, contando-nos a epopeia de Marco Stanley Fogg no conhecimento da sua própria história, da história da sua família, as suas origens como homem, desde a existência fugaz e solitária dos tempos de estudante em Columbia.

Mais uma vez, contado na primeira pessoa, com uma personagem quixotesca, à procura do sentido da vida, contra moinhos de vento, atravessando transversalmente o tempo e o espaço. Um viajante perdido que acaba por se encontrar num rio de peripécias e coincidências desaguando num "Palácio da Lua".

Nota: 5

quinta-feira, 4 de outubro de 2012

Para Roma com Amor




Vi finalmente "Para Roma Com Amor" este semana. Não fiquei desiludido. Não é o pior filme do Woody Allen. Longe disso. A fotografia é excelente, a banda sonora é perfeita e o enredo estimulante e envolvente.

Algumas histórias são mais interessantes do que outras, mas o brilhantismo irónico de Woody Allen está presente em todas, seja de forma explicita como na história encabeçada por Roberto Benigni, na qual um homem comum se torna famoso do dia para a noite, ou de forma sublime com Alec Baldwin a reviver e a tentar corrigir erros do passado, ou mesmo o status quo intocável do actores.

De destacar ainda o papel brilhante de Penélope Cruz representando uma voluptuosa prostituta italiana.

Sou suspeito, já que sou um fã incondicional do trabalho deste criador e sim, é verdade que outros filmes já me seduziram mais, mas temos que olhar para cada filme como uma parte ínfima de uma obra inigualável. Cada uma com o seu pormenor, com o seu lugar de destaque, nem que seja uma punch line isolada a meio de um discurso de uma personagem secundária.

Com o cenário romano, os actores escolhidos e o argumento ao dispor este é o filme possível mas, sublinho, tem momentos de brilhantismo, ironia, humor e critica sociocultural.

Comparo este filme a outras obras do realizador como “Everyone says i love you” ou “Celebrity” que, apesar de não terem sido bem recebidos pela critica na altura, fazem parte de uma lógica maior, que ficará para posterioridade.

Nota: 4

quarta-feira, 3 de outubro de 2012

Memórias das Estrelas sem brilho - José Leon Machado‏



Num dia quente de Julho, quando tinha muito em mente, resolvi ir relaxar para a Fnac do Chiado. Nada melhor do um sitio fechado, quente e apinhado de gente para relaxar. Enfim, pelo menos livros não faltam, pensei eu.

Foi naquele momento, enquanto passava o casaco de um braço para o outro, que me deparei com a capa de "Memórias das Estrelas sem brilho". Um soldado português durante a primeira grande guerra desenhado a preto e branco. Os olhos vítreos daquele homem e a sua expressão perdida deixaram-me hipnotizado. Foi amor à primeira vista. Tinha que comprar o livro.

O autor é José Leon Machado e confesso que nunca tinha ouvido falar, mas a verdade é que li o livro numa noite. Fiquei completamente envolvido na sua escrita simples e ingénua e nas memórias e aventuras descritas no romance.

O livro conta-nos a história de um jovem português destacado para a Flandres em 1914, directamente para as trincheiras. As amizades e a camaradagem ímpar em tempos de guerra e a realidade dos veteranos do Corpo Expedicionário Português.

Desde então, nunca mais vi o livro à venda e tenho tentado um pouco por todo lado encontrar mais obras do autor. Infelizmente em vão.

Nota: 4

terça-feira, 2 de outubro de 2012

As Três Vidas - João Tordo



João Tordo transformou-se, com este livro, num dos meus escritores preferidos. Vencedor merecido do prémio Saramago, este jovem autor cria um clima de escrita único com uma teia misteriosa e cativante.

A escolha de uma personagem solitária, isolada, com voz de narrador, é própria deste autor que, tal como Paul Auster, aprofunda desta forma a identidade humana e aproxima os leitores da personagem principal.

Em "As Três Vidas", o narrador (personagem principal) é convidado para fazer um trabalho misterioso para António Millhouse Pascal, exilado numa casa no Alentejo, bebendo da companhia dos seus três netos e de labirínticos e misteriosos momentos.

A aventura começa aqui e, após a visita de estranhas personagens, a descoberta dos segredos do enigmático Millhouse Pascal e a paixão por Camila, a neta mais velha do seu patrão, levam o narrador a percorrer um caminho de descoberta, de destino incerto, do Alentejo a Nova Iorque.

O talento criativo de João Tordo em todo o seu esplendor. O seu melhor romance. Apaixonante.

Nota: 5

segunda-feira, 1 de outubro de 2012

1Q84 - Haruki Murakami



Ninguém mais, para além de Haruki Murakami, consegue criar uma realidade imaginária ou um mundo alternativo e, ao mesmo tempo, ser tão sincero com o nosso tempo, com as nossas vidas.

Este romance épico de três volumes, bafejado de intenso impulso criativo, toma lugar em Tóquio, no ano de 1984 e explora a vida de duas personagens centrais muito especiais, Aomame e Tengo. Aomame, instrutora de artes marciais num ginásio local e Tengo, professor de matemática e escritor.

Aos poucos e poucos, a realidade vai-se alterando na vida destas duas personagens unidas pelo passado e pelo futuro. Pequenas alterações mas de sublime relevância, vão sendo sentidas, e conduzem Aomame e Tengo a um mundo paralelo no espaço e no tempo, iluminado por duas luas, onde todas as variáveis são questionadas, onde a liberdade se perde e a atmosfera se torna sombria, o ano de 1Q84.

Tudo começa quando, no ano de 1984, um editor de nome Komatsu, propõe a Tengo a revisão de um romance escrito por uma pródiga e estranha adolescente, chamada Fuka-Eri, intitulado "A crisálida de ar".
Ao mesmo tempo, Aomame é convidada por uma velha filantropa para assassinar um lider religioso e, quando viaja de taxi, pela autostrada, escolhe mudar de rumo e tomar um atalho a pé. Este pequeno pormenor vai proporcionar a Aomame uma visita a 1Q84. 

Numa fracção de segundos a realidade muda de forma e as nossas personagens caminham em direcção a um destino há muito deliniado.

Como pano de fundo, o autor debruça-se sobre a polémica das seitas religiosas e o mito dos mundos parelos, das realidades alternativas, a teoria platónica da realidade (essência) versus aparência.

O segundo e o terceiro volume da trilogia passam-se já em 1Q84 e têm como mote o possível encontro adiado de Tengo e Aomame, únidos por um amor capaz de derrubar fronteiras e, mesmo vinte e cinco anos depois do seu último encontro, as vidas de Aomame e Tengo vão-se tornando cada vez mais próximas.

Apenas uma nota negativa: por vários momentos da narrativa, nota-se que os livros foram traduzido do inglês, algo que não acontece nas obras mais antigas do autor.

Uma obra prima (cuidado porque vão ficar viciados) que certamente catapultará Murakami para o tão ansiado Nobel da Literatura. Para os iniciados ou viciados em Murakami, uma obra perfeita, insuperável.

Nota: 5