terça-feira, 2 de outubro de 2012

As Três Vidas - João Tordo



João Tordo transformou-se, com este livro, num dos meus escritores preferidos. Vencedor merecido do prémio Saramago, este jovem autor cria um clima de escrita único com uma teia misteriosa e cativante.

A escolha de uma personagem solitária, isolada, com voz de narrador, é própria deste autor que, tal como Paul Auster, aprofunda desta forma a identidade humana e aproxima os leitores da personagem principal.

Em "As Três Vidas", o narrador (personagem principal) é convidado para fazer um trabalho misterioso para António Millhouse Pascal, exilado numa casa no Alentejo, bebendo da companhia dos seus três netos e de labirínticos e misteriosos momentos.

A aventura começa aqui e, após a visita de estranhas personagens, a descoberta dos segredos do enigmático Millhouse Pascal e a paixão por Camila, a neta mais velha do seu patrão, levam o narrador a percorrer um caminho de descoberta, de destino incerto, do Alentejo a Nova Iorque.

O talento criativo de João Tordo em todo o seu esplendor. O seu melhor romance. Apaixonante.

Nota: 5

segunda-feira, 1 de outubro de 2012

1Q84 - Haruki Murakami



Ninguém mais, para além de Haruki Murakami, consegue criar uma realidade imaginária ou um mundo alternativo e, ao mesmo tempo, ser tão sincero com o nosso tempo, com as nossas vidas.

Este romance épico de três volumes, bafejado de intenso impulso criativo, toma lugar em Tóquio, no ano de 1984 e explora a vida de duas personagens centrais muito especiais, Aomame e Tengo. Aomame, instrutora de artes marciais num ginásio local e Tengo, professor de matemática e escritor.

Aos poucos e poucos, a realidade vai-se alterando na vida destas duas personagens unidas pelo passado e pelo futuro. Pequenas alterações mas de sublime relevância, vão sendo sentidas, e conduzem Aomame e Tengo a um mundo paralelo no espaço e no tempo, iluminado por duas luas, onde todas as variáveis são questionadas, onde a liberdade se perde e a atmosfera se torna sombria, o ano de 1Q84.

Tudo começa quando, no ano de 1984, um editor de nome Komatsu, propõe a Tengo a revisão de um romance escrito por uma pródiga e estranha adolescente, chamada Fuka-Eri, intitulado "A crisálida de ar".
Ao mesmo tempo, Aomame é convidada por uma velha filantropa para assassinar um lider religioso e, quando viaja de taxi, pela autostrada, escolhe mudar de rumo e tomar um atalho a pé. Este pequeno pormenor vai proporcionar a Aomame uma visita a 1Q84. 

Numa fracção de segundos a realidade muda de forma e as nossas personagens caminham em direcção a um destino há muito deliniado.

Como pano de fundo, o autor debruça-se sobre a polémica das seitas religiosas e o mito dos mundos parelos, das realidades alternativas, a teoria platónica da realidade (essência) versus aparência.

O segundo e o terceiro volume da trilogia passam-se já em 1Q84 e têm como mote o possível encontro adiado de Tengo e Aomame, únidos por um amor capaz de derrubar fronteiras e, mesmo vinte e cinco anos depois do seu último encontro, as vidas de Aomame e Tengo vão-se tornando cada vez mais próximas.

Apenas uma nota negativa: por vários momentos da narrativa, nota-se que os livros foram traduzido do inglês, algo que não acontece nas obras mais antigas do autor.

Uma obra prima (cuidado porque vão ficar viciados) que certamente catapultará Murakami para o tão ansiado Nobel da Literatura. Para os iniciados ou viciados em Murakami, uma obra perfeita, insuperável.

Nota: 5

sábado, 29 de setembro de 2012

Até lá Abaixo - Tiago Carrasco


Um plano vindo do nada, um sonho, uma epopeia. Três amigos decidem largar tudo e lançarem-se à aventura. Cinco meses, ou melhor, cento e cinquenta dias, percorrendo o continente africano de norte a sul, visitando vinte e um países num velho Jipe e sem dinheiro. São cerca de trinta mil quilómetros, de Marrocos até à África do Sul, superando adversidades impossíveis de imaginar.
 
Este fantástico livro de viagens fala-nos, bem perto, bem junto ao peito e faz-nos meditar sobre as nossas vidas medíocres, a essência dos nossos objectivos e sonhos há muito perdidos.
 
Quando terminei este "Até lá Abaixo" a primeira coisa que pensei foi que queria deixar o meu emprego e a minha vida em Lisboa, agarrar em dois companheiros e fugir, viajar, partir à aventura por outros mundos, outras realidades, enfrentando medos e inseguranças. Desafiar o destino. Numa só palavra, Viver.
 
Tiago Carrasco tem uma grande vantagem como jornalista e, ao contar uma história real, na primeira pessoa fez-me sentir parte da aventura, percorrendo com eles os desertos e as selvas africanas. Na pior das hipóteses fez-me sonhar.
 
Nota: 4

sexta-feira, 28 de setembro de 2012

A Conspiração dos Antepassados - David Soares‏


Penso que falo por muitos leitores quando digo que transformar Fernando Pessoa numa personagem de um livro é uma ideia brilhante.

Se adicionarmos a este facto uma história policial ou uma aventura cheia de mistério, de Lisboa a Sintra, da Tunísia a Londres, passando por reuniões secretas, seitas, e encontros místicos da Boca do Inferno à Quinta da Regaleira, temos uma fórmula de sucesso. É exactamente isto que nos é trazido por David Soares em "A Conspiração dos Antepassados".

A história é contada a duas vozes, Fernando Pessoa, poeta e místico português e Aleister Crowley, mágico inglês, cujo encontro em Lisboa se tornou polémico. Tem como sombra e pano de fundo o sebastianismo e o mito quinto-imperial, assim como as razões que levaram Portugal (e várias gerações) a perder a sua identidade em Alcácer-Quibir.

Excelentemente escrito e com forte segurança nas fontes documentais, este livro, apesar de pertencer ao mundo da literatura do fantástico, sacia também os amantes de História, Poesia e romances policiais.
Um livro viciante, ao bom estilo de Poe. Largamente recomendado.

Nota: 4

quinta-feira, 27 de setembro de 2012

Madrugada na tua Alma - Gabriel Magalhães



O tema da eterna procura do segredo que revelará o destino do povo português, povo escolhido por Deus para comandar o Mundo em direcção à eternidade, volta em grande com este romance de Gabriel Magalhães "Madrugada na tua Alma".

Entre alfarrabistas, solares e castelos, por todo o Portugal e passando também por Angola, Miguel Ângelo, personagem errante e desesperada, qual cavaleiro andante de suja armadura, desempregado e solitário, parte em busca de um livro esquecido que contém o grande segredo que vai retirar Portugal da obscuridade desta idade média contemporânea.

A escrita cuidada, eloquente e muitas vezes mágica de Gabriel Magalhães acrescentam ao romance uma luz apropriada à temática. Há passagens neste livro que me fizeram respirar melhor.

Este podia ser a grande obra do autor, depois de "Não tenhas medo do escuro" e Planície de Espelhos", mas, apesar de tudo o que já escrevi, a certa altura, o romance banaliza-se, as personagens perdem-se, saem da realidade da história contada, deixam de ser alimentadas, deixam de ser verosímeis, provocando um anti-climax frustrante no leitor.

Nota: 3

quarta-feira, 26 de setembro de 2012

Crime - Irvine Welsh



Os livros de Irvine Welsh são uma lufada de ar fresco criativo no panorama literário actual. Vale a pena perder uns dias (ou ganhar) a ler toda a obra deste escritor escocês.

Neste "Crime", Ray Lennox, detective escocês, viaja para Miami acompanhado da noiva Trudi, com o objectivo de passar umas férias tranquilizantes e aproveitando o facto para fazer uma limpeza dos vícios extremos de Edimburgo.

De personalidade vincada e atormentada (consequência de não ter conseguido salvar uma vítima de pedofilia num caso passado), com surtos e violentos ataques de pânico, Lennox, personagem já anteriormente utilizada por Welsh no seu aclamado romance "Lixo", acaba por não aguentar a pressão da viagem em vésperas do casamento, cede ás tentações da cocaína e do trauma, perseguindo potenciais pedófilos (os papa-anjinhos) por toda a Florida.

Um romance magistralmente construído, inteligente, de tendências Punk como toda a sua obra (desde "Trainspotting") e brilhantemente escrito. A não perder.

Nota: 4

terça-feira, 25 de setembro de 2012

"Prisioneiro do Céu" - Carlos Ruiz Záfon



Depois do sucesso de "A sombra do vento" e "O jogo do Anjo" chega-nos a ansiosa sequela. O livro que unirá todos os pontos e pontes da obra de Carlos Ruiz Zafón. Será o caso? Nem por isso.
Infelizmente torna-se difícil ao autor criar a narrativa interessante ou penetrante. Esse facto é marcante por toda a história.

Apesar de introduzir novas personagens ou aprofundar personagens intrigantes já introduzidas nos outros dois romances, este "Prisioneiro do Céu" acaba por se transformar no parente pobre da trilogia.

Apesar de tudo, é essencial sublinhar a bela e viciante escrita de Záfon, trazendo à baila o estilo de romance gótico, pouco explorado na escrita contemporânea e facto notável. Provavelmente este livro serve para o autor dar o salto para uma obra maior, um romance de transição, mas decepcionou-me. Esperava muito mais. Quando acabei o livro ficou uma sensação estranha de vazio. Vale a pena? Vale, sem dúvida, mas preparem-se para sentir o mesmo.

Nota: 3