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sexta-feira, 26 de outubro de 2012

Trilogia Suja de Havana - Pedro Juan Gutiérrez‏



Este autor e esta obra continuam um estilo de escrita semi-pornográfico, escatológico, sexista e chauvinista já apresentado à literatura pelos génios Charles Bukowski e John Fante.

Por muitos considerada literatura menor, mas por mim admirada e recomendada, este estilo põe a nu os desejos, os caprichos e as experiências mais sujas e depravadas da natureza humana.

Pedro Juan Gutiérrez tem o dom de o fazer com ainda mais afinco que os seus antecessores e, desenterrando a podridão, conta o quotidiano miserável de Havana dos anos noventa em pequenos contos interligados.

Ao lê-lo podem ter a certeza que ficam a conhecer muito melhor a realidade social cubana. Muito mais do que uma viagem a Cuba com tudo incluído. Aqui, a viagem é curta mas profunda, suja e decadente. 

Alguns leitores podem ficar chocados com o descrito nesta obra fenomenal, mas o choque é antónimo da indiferença (inimiga da Arte).

Esta é, sem dúvida alguma, a grande arma de Gutiérrez e funciona com regra máxima na sua obra. O seu melhor livro e um marco na literatura latino-americana.

Nota: 5

quinta-feira, 25 de outubro de 2012

O Bom Inverno - João Tordo


O Bom Inverno conta-nos a história de um jovem coxo e talentoso escritor que, após uma curta viagem a Budapeste, para um encontro entre escritores, conhece e trava amizade com um jovem italiano, Vincenzo Gentile, que o convida a passar uma temporada numa casa do lago em Sabaudia, Itália.

É a partir desta viagem que a nossa personagem (também narrador), completamente isolado do seu e do nosso mundo, vai conhecer personagens misteriosas e pouco ortodoxas, retiradas de um Filme de David Lynch.

Só para citar alguns: um excêntrico produtor de cinema, Don Metzger, com um estranho gosto por balões de ar quente; Andrés Bosco, um catalão, encorpado e sinistro, que constrói ele próprio os balões de Mezger; Elsa Gorski, uma atriz famosa, tipo femme fatale, sensual e perigosa. Muitas, mas muitas mais personagens que tornam a teia complexa e distinta.

Tudo começa com a morte do anfitrião, Metzger e, a partir daí, um clima de suspeição e um nevoeiro de dúvida caem sobre a casa do lago e estragam a festa.. Quem é o assassino? A história vai-se revelando em direcção à verdade.

Um grande romance, de um jovem escritor português, com cartas dadas e um lugar de destaque no panorama literário português.

Nota: 4

terça-feira, 23 de outubro de 2012

As Cinquenta Sombras de Grey - E L James



Comprei as As Cinquenta Sombras de Grey numa manhã quente de verão enquanto acabava dois livros que andava a ler há demasiado tempo. Pensei, talvez seja bom para sair da rotina. Entretanto, foram passando dias e dias, livros novos pelo meio e o romance de E. L. James (primeiro da trilogia) transformou-se num fenómeno mundial. Lá decidi, super entusiasmado, começar a ler esta suposta maravilha.

Acreditam que li perto de 100 páginas num esforço brutal para a chegar à parte "picante" e não aguentei mais? Que sacrificio. Tão mal escrito. Tão fútil. Tão imaginação de uma quarentona frustrada sem talento. Enfim. Parei e tive vai não vai para lhe fazer o mesmo que quis fazer com o "Crepúsculo". Deitá-lo fora. Nem a parte da "mommy porn" me despertou curiosidade. 

O sucesso? Chega a toda a gente pela simplicidade e fala de sexo (semi-hardcore). Nem percam tempo.

Nota: 1

sexta-feira, 19 de outubro de 2012

Ham on Rye - Charles Bukowski



Há alturas das nossas vidas em que, ao olharmos para trás no nosso caminho, as memórias da infância e adolescência parecem ser longínquas, como miragens no deserto.

Este "Ham on Rye" serve para Charles Bukowski como expiação para memórias dolorosas dos seus jovens anos.

De uma crueza e dureza impressionantes, Bukowski traz-nos de volta a sua personagem mais famosa, o autobiográfico e errático Henry Chinaski. Neste romance explora as aventuras e desventuras de um jovem solitário, desenraizado, marcado pelo acne e pelos espancamentos brutais do seu pai, a crescer na cidade de Los Angeles dos anos 40 e 50.

Considerado por muitos o melhor livro de Charles Bukowski, "Ham on Rye", é basicamente o resumo do inicio da vida do autor em memórias. Cozido por uma simplicidade cortante e fascinante, este livro, deixa-nos marcas profundas na melhor compreensão do comportamento humano.

Nota: 5

quinta-feira, 18 de outubro de 2012

Assédio - Arturo Pérez-Reverte‏



Para os fãs de Arturo Pérez-Reverte este era um aguardado regresso. Um livro colossal em tamanho, em conteúdo, em personagens, em intrigas e, como não podia deixar de ser, em mistério.

Como se de uma partida de xadrez se tratasse, Cádis 1811, várias mulheres aparecem mortas e nesses mesmos locais cai uma bomba, acontecimentos enigmáticos que vão marcando um mapa pela cidade. Um mapa lógico orquestrado por um assassino misterioso. Todas as personagens são suspeitas, ninguém sai incólome, ninguém é dono do seu próprio destino.

Pérez-Reverte dá-nos as coordenadas para um romance único, com todos os condimentos por ele utilizados noutros romances. Todos condensados num só livro. Talvez a sua obra prima. Apresento-vos Assédio.
Brilhante.

Nota: 4

terça-feira, 16 de outubro de 2012

Clube de Patifes - Dan Simmons



Ainda durante a Segunda Guerra Mundial, Ernest Hemingway monta em Cuba, na Finca Vigia (a sua casa), juntamente com o agente do FBI Joe Lucas, um pequeno grupo amador de espionagem, patrulhando e observando as operações americanas e alemãs naquela pequena ilha das Caraibas.

Este "Clube de Patifes" de Dan Simmons foca os últimos dias da vigorosa existência do escritor, tratando-o como personagem principal de um romance de espionagem.

A pesca, as armas, os charutos, o alcool e o feitio especial de Hemingway são brilhantemente retratados nesta fantástica obra de ficção.

Um livro fácil de ler que nos leva a conhecer pormenores da biografia do melhor e mais completo escritor americano do século XX. Perfeito para os fãs de Simmons e do estilo de literatura de espionagem à le John Le Carré, essencial para os fãs de Hemingway. 

Quando comprei este livro torci o nariz de desconfiado mas, um fim-de-semana depois já estava triste por se ter acabado a aventura.

Nota: 4

quinta-feira, 11 de outubro de 2012

Adeus ás Armas - Ernest Hemingway‏


O "Adeus ás Armas" ou " A farewell to Arms" é, sem dúvida alguma (na minha pequena e boémia opinião), o melhor romance da literatura contemporânea.

Filho da pena do génio literário Ernest Hemingway e neto da "Lost Generation", este romance épico, de uma realidade bruta e de frieza crua, dá-nos a conhecer a história de um soldado americano, Frederic Henry, ferido por um morteiro durante a primeira grande guerra mundial. Enviado para convalescência em Milão, conhece a enfermeira Catherine Barkley, por quem se apaixona loucamente.

Por má fortuna, Henry, tem de regressar à frente de combate e acaba por desertar por não suportar a saudade do amor que cresce, dia após dia, por Catherine.

Frederic Henry anda fugido e é condenado à morte por traição até que, após um tempo de estrada, volta para os braços da sua amada, procurando exílio na neutra Suiça.

Este romance marcou-me profundamente. O estilo duro de Hemingway, em parte biográfico, explode-nos na cara como se de uma bomba de emoções se tratasse. De uma beleza cega, capaz de nos fazer apaixonar pela vida e pelo prazer do Amor. Uma obra ímpar do meu escritor preferido. Os romances de Hemingway são poemas aos Deuses. O meu livro preferido.

Há um mês atrás saiu no Expresso um anexo acerca dos 50 livros que temos que ler "obrigatoriamente". Para meu espanto, "O Adeus ás Armas" não constava (nem qualquer romance deste Senhor). Alguém anda a dormir na parada! E não sou eu!

É extremamente dificil para mim dar uma nota a uma obra-prima desta qualidade. Não o sei fazer (quem sou eu?) e nem sequer me atrevo a tentar.

quarta-feira, 10 de outubro de 2012

O Livreiro de Cabul - Asne Seierstad‏



No contexto da guerra no Afeganistão, Asne Seierstad, jornalista e correspondente de guerra de nacionalidade norueguesa, viaja até Cabul para seguir de perto os costumes e intimidade de uma família afegã no quotidiano - a família de Sultan Kham, o livreiro mais importante e conhecido do seu país. Um homem que, apesar de guerras, invasões e trocas de regimes continua, desde há trinta anos, a dedicar-se, de corpo e alma, a um dos negócios mais antigos do Mundo.

Este livro traz-nos de forma simples, numa escrita quase romanceada, o choque e a realidade sociocultural entre as sociedades ocidentais e os países do Médio Oriente.

Envergando uma “burqa”, Seierstad junta-se ás mulheres da família, seguindo de forma atenta os seus dramas, segredos, amores e desejos. Aproveita também para seguir os homens e acompanhar atentamente a tarefa de importação de livros em cenário de guerra, inspirando o ar seco das montanhas do Afeganistão.

Livro excelente para conhecermos uma realidade cultural oposta à nossa, aproveitando relatos de personagens reais e fidedignos.

Nota: 4

segunda-feira, 8 de outubro de 2012

Palácio da Lua - Paul Auster‏



Sou suspeito quando falo de algum livro de Paul Auster, uma vez que li todos os livros traduzidos para português (vou ter a honra de vos apresentar neste espaço todos eles) e vi também os seus filmes (argumento e realização). Considero-me um fã do estilo e do autor.

Quando comprei este "Palácio da Lua" já levava uma bagagem considerável da obra deste escritor norte-americano que, volta não volta, visita o nosso país.

Esta história é a mais completa e pormenorizada de Auster, contando-nos a epopeia de Marco Stanley Fogg no conhecimento da sua própria história, da história da sua família, as suas origens como homem, desde a existência fugaz e solitária dos tempos de estudante em Columbia.

Mais uma vez, contado na primeira pessoa, com uma personagem quixotesca, à procura do sentido da vida, contra moinhos de vento, atravessando transversalmente o tempo e o espaço. Um viajante perdido que acaba por se encontrar num rio de peripécias e coincidências desaguando num "Palácio da Lua".

Nota: 5

quarta-feira, 3 de outubro de 2012

Memórias das Estrelas sem brilho - José Leon Machado‏



Num dia quente de Julho, quando tinha muito em mente, resolvi ir relaxar para a Fnac do Chiado. Nada melhor do um sitio fechado, quente e apinhado de gente para relaxar. Enfim, pelo menos livros não faltam, pensei eu.

Foi naquele momento, enquanto passava o casaco de um braço para o outro, que me deparei com a capa de "Memórias das Estrelas sem brilho". Um soldado português durante a primeira grande guerra desenhado a preto e branco. Os olhos vítreos daquele homem e a sua expressão perdida deixaram-me hipnotizado. Foi amor à primeira vista. Tinha que comprar o livro.

O autor é José Leon Machado e confesso que nunca tinha ouvido falar, mas a verdade é que li o livro numa noite. Fiquei completamente envolvido na sua escrita simples e ingénua e nas memórias e aventuras descritas no romance.

O livro conta-nos a história de um jovem português destacado para a Flandres em 1914, directamente para as trincheiras. As amizades e a camaradagem ímpar em tempos de guerra e a realidade dos veteranos do Corpo Expedicionário Português.

Desde então, nunca mais vi o livro à venda e tenho tentado um pouco por todo lado encontrar mais obras do autor. Infelizmente em vão.

Nota: 4

terça-feira, 2 de outubro de 2012

As Três Vidas - João Tordo



João Tordo transformou-se, com este livro, num dos meus escritores preferidos. Vencedor merecido do prémio Saramago, este jovem autor cria um clima de escrita único com uma teia misteriosa e cativante.

A escolha de uma personagem solitária, isolada, com voz de narrador, é própria deste autor que, tal como Paul Auster, aprofunda desta forma a identidade humana e aproxima os leitores da personagem principal.

Em "As Três Vidas", o narrador (personagem principal) é convidado para fazer um trabalho misterioso para António Millhouse Pascal, exilado numa casa no Alentejo, bebendo da companhia dos seus três netos e de labirínticos e misteriosos momentos.

A aventura começa aqui e, após a visita de estranhas personagens, a descoberta dos segredos do enigmático Millhouse Pascal e a paixão por Camila, a neta mais velha do seu patrão, levam o narrador a percorrer um caminho de descoberta, de destino incerto, do Alentejo a Nova Iorque.

O talento criativo de João Tordo em todo o seu esplendor. O seu melhor romance. Apaixonante.

Nota: 5

segunda-feira, 1 de outubro de 2012

1Q84 - Haruki Murakami



Ninguém mais, para além de Haruki Murakami, consegue criar uma realidade imaginária ou um mundo alternativo e, ao mesmo tempo, ser tão sincero com o nosso tempo, com as nossas vidas.

Este romance épico de três volumes, bafejado de intenso impulso criativo, toma lugar em Tóquio, no ano de 1984 e explora a vida de duas personagens centrais muito especiais, Aomame e Tengo. Aomame, instrutora de artes marciais num ginásio local e Tengo, professor de matemática e escritor.

Aos poucos e poucos, a realidade vai-se alterando na vida destas duas personagens unidas pelo passado e pelo futuro. Pequenas alterações mas de sublime relevância, vão sendo sentidas, e conduzem Aomame e Tengo a um mundo paralelo no espaço e no tempo, iluminado por duas luas, onde todas as variáveis são questionadas, onde a liberdade se perde e a atmosfera se torna sombria, o ano de 1Q84.

Tudo começa quando, no ano de 1984, um editor de nome Komatsu, propõe a Tengo a revisão de um romance escrito por uma pródiga e estranha adolescente, chamada Fuka-Eri, intitulado "A crisálida de ar".
Ao mesmo tempo, Aomame é convidada por uma velha filantropa para assassinar um lider religioso e, quando viaja de taxi, pela autostrada, escolhe mudar de rumo e tomar um atalho a pé. Este pequeno pormenor vai proporcionar a Aomame uma visita a 1Q84. 

Numa fracção de segundos a realidade muda de forma e as nossas personagens caminham em direcção a um destino há muito deliniado.

Como pano de fundo, o autor debruça-se sobre a polémica das seitas religiosas e o mito dos mundos parelos, das realidades alternativas, a teoria platónica da realidade (essência) versus aparência.

O segundo e o terceiro volume da trilogia passam-se já em 1Q84 e têm como mote o possível encontro adiado de Tengo e Aomame, únidos por um amor capaz de derrubar fronteiras e, mesmo vinte e cinco anos depois do seu último encontro, as vidas de Aomame e Tengo vão-se tornando cada vez mais próximas.

Apenas uma nota negativa: por vários momentos da narrativa, nota-se que os livros foram traduzido do inglês, algo que não acontece nas obras mais antigas do autor.

Uma obra prima (cuidado porque vão ficar viciados) que certamente catapultará Murakami para o tão ansiado Nobel da Literatura. Para os iniciados ou viciados em Murakami, uma obra perfeita, insuperável.

Nota: 5

sábado, 29 de setembro de 2012

Até lá Abaixo - Tiago Carrasco


Um plano vindo do nada, um sonho, uma epopeia. Três amigos decidem largar tudo e lançarem-se à aventura. Cinco meses, ou melhor, cento e cinquenta dias, percorrendo o continente africano de norte a sul, visitando vinte e um países num velho Jipe e sem dinheiro. São cerca de trinta mil quilómetros, de Marrocos até à África do Sul, superando adversidades impossíveis de imaginar.
 
Este fantástico livro de viagens fala-nos, bem perto, bem junto ao peito e faz-nos meditar sobre as nossas vidas medíocres, a essência dos nossos objectivos e sonhos há muito perdidos.
 
Quando terminei este "Até lá Abaixo" a primeira coisa que pensei foi que queria deixar o meu emprego e a minha vida em Lisboa, agarrar em dois companheiros e fugir, viajar, partir à aventura por outros mundos, outras realidades, enfrentando medos e inseguranças. Desafiar o destino. Numa só palavra, Viver.
 
Tiago Carrasco tem uma grande vantagem como jornalista e, ao contar uma história real, na primeira pessoa fez-me sentir parte da aventura, percorrendo com eles os desertos e as selvas africanas. Na pior das hipóteses fez-me sonhar.
 
Nota: 4

sexta-feira, 28 de setembro de 2012

A Conspiração dos Antepassados - David Soares‏


Penso que falo por muitos leitores quando digo que transformar Fernando Pessoa numa personagem de um livro é uma ideia brilhante.

Se adicionarmos a este facto uma história policial ou uma aventura cheia de mistério, de Lisboa a Sintra, da Tunísia a Londres, passando por reuniões secretas, seitas, e encontros místicos da Boca do Inferno à Quinta da Regaleira, temos uma fórmula de sucesso. É exactamente isto que nos é trazido por David Soares em "A Conspiração dos Antepassados".

A história é contada a duas vozes, Fernando Pessoa, poeta e místico português e Aleister Crowley, mágico inglês, cujo encontro em Lisboa se tornou polémico. Tem como sombra e pano de fundo o sebastianismo e o mito quinto-imperial, assim como as razões que levaram Portugal (e várias gerações) a perder a sua identidade em Alcácer-Quibir.

Excelentemente escrito e com forte segurança nas fontes documentais, este livro, apesar de pertencer ao mundo da literatura do fantástico, sacia também os amantes de História, Poesia e romances policiais.
Um livro viciante, ao bom estilo de Poe. Largamente recomendado.

Nota: 4

quinta-feira, 27 de setembro de 2012

Madrugada na tua Alma - Gabriel Magalhães



O tema da eterna procura do segredo que revelará o destino do povo português, povo escolhido por Deus para comandar o Mundo em direcção à eternidade, volta em grande com este romance de Gabriel Magalhães "Madrugada na tua Alma".

Entre alfarrabistas, solares e castelos, por todo o Portugal e passando também por Angola, Miguel Ângelo, personagem errante e desesperada, qual cavaleiro andante de suja armadura, desempregado e solitário, parte em busca de um livro esquecido que contém o grande segredo que vai retirar Portugal da obscuridade desta idade média contemporânea.

A escrita cuidada, eloquente e muitas vezes mágica de Gabriel Magalhães acrescentam ao romance uma luz apropriada à temática. Há passagens neste livro que me fizeram respirar melhor.

Este podia ser a grande obra do autor, depois de "Não tenhas medo do escuro" e Planície de Espelhos", mas, apesar de tudo o que já escrevi, a certa altura, o romance banaliza-se, as personagens perdem-se, saem da realidade da história contada, deixam de ser alimentadas, deixam de ser verosímeis, provocando um anti-climax frustrante no leitor.

Nota: 3

quarta-feira, 26 de setembro de 2012

Crime - Irvine Welsh



Os livros de Irvine Welsh são uma lufada de ar fresco criativo no panorama literário actual. Vale a pena perder uns dias (ou ganhar) a ler toda a obra deste escritor escocês.

Neste "Crime", Ray Lennox, detective escocês, viaja para Miami acompanhado da noiva Trudi, com o objectivo de passar umas férias tranquilizantes e aproveitando o facto para fazer uma limpeza dos vícios extremos de Edimburgo.

De personalidade vincada e atormentada (consequência de não ter conseguido salvar uma vítima de pedofilia num caso passado), com surtos e violentos ataques de pânico, Lennox, personagem já anteriormente utilizada por Welsh no seu aclamado romance "Lixo", acaba por não aguentar a pressão da viagem em vésperas do casamento, cede ás tentações da cocaína e do trauma, perseguindo potenciais pedófilos (os papa-anjinhos) por toda a Florida.

Um romance magistralmente construído, inteligente, de tendências Punk como toda a sua obra (desde "Trainspotting") e brilhantemente escrito. A não perder.

Nota: 4

terça-feira, 25 de setembro de 2012

"Prisioneiro do Céu" - Carlos Ruiz Záfon



Depois do sucesso de "A sombra do vento" e "O jogo do Anjo" chega-nos a ansiosa sequela. O livro que unirá todos os pontos e pontes da obra de Carlos Ruiz Zafón. Será o caso? Nem por isso.
Infelizmente torna-se difícil ao autor criar a narrativa interessante ou penetrante. Esse facto é marcante por toda a história.

Apesar de introduzir novas personagens ou aprofundar personagens intrigantes já introduzidas nos outros dois romances, este "Prisioneiro do Céu" acaba por se transformar no parente pobre da trilogia.

Apesar de tudo, é essencial sublinhar a bela e viciante escrita de Záfon, trazendo à baila o estilo de romance gótico, pouco explorado na escrita contemporânea e facto notável. Provavelmente este livro serve para o autor dar o salto para uma obra maior, um romance de transição, mas decepcionou-me. Esperava muito mais. Quando acabei o livro ficou uma sensação estranha de vazio. Vale a pena? Vale, sem dúvida, mas preparem-se para sentir o mesmo.

Nota: 3

segunda-feira, 24 de setembro de 2012

A Sul de Nenhum Norte - Charles Bukowski



Quando já tinha desistido de procurar livros do Bukowski publicados em Portugal, assim do nada, num daqueles dias de prospecção aos alfarrabistas lisboetas, por descargo de consciência, vi-me numa formosa e famosa livraria do LX Factory (a única deste espaço ímpar) a procurar títulos na letra B, enquanto fazia a digestão do almoço. Foi nessa altura que me deparei com mais um livro deste autor "maldito", desta personagem assombrosa e polémica que inundou a última metade do século XX com o seu talento vagabundo.

Era "A Sul de Nenhum Norte", uma colectânea de contos, bem ao estilo cru, ultra-realista, subterrâneo e ébrio do "dirty old man", Charles Bukowski. Escusado será dizer que o devorei em duas tardes. Fui com tanta "sede ao pote" que tive que o voltar a ler uma semana depois, só para ficar saciado.

É difícil eleger o melhor ou os melhores contos deste livro, aliás, leiam todos várias vezes e desfrutem. Vão ficar arrebatados.

Nota: 5

sexta-feira, 21 de setembro de 2012

Norwegian Wood - Haruki Murakami



Forçado a escolher entre um amor passado e um amor futuro, Toru Watanabe, vive no início da sua vida adulta um período inquietante. Preso a Kizuki (namorada do seu melhor amigo de infância) e a uma noite fatídica, a personagem principal deste romance flutua no espaço e no tempo, entre estranhas amizades, perturbantes acontecimentos e um novo amor, de nome Midori.

Tal como Watanabe, apaixonei-me também por Kizuki e pela sua casta e dependente existência, mas não pude deixar de me arrebatar com a irreverência e emancipação de Midori. Lados opostos da mesma moeda.

Voltando à polémica temática do suicídio, Haruki Murakami, escreve, na minha opinião, o seu melhor livro, evitando a criação de mundos alternativos e cenários profundamente alegóricos. Nenhum outro livro deste fantástico romancista, eterno candidato ao Nobel da Literatura, consegue igualar o estado de sobriedade aqui criado.

Este livro demarca-se da maioria da obra imaginária de Murakami, com a produção de personagens quotidianas com problemas actuais e mundanos.

Usando como titulo e mote uma música dos Beatles, Norwegian Wood, inquietou-me, trouxe-me momentos de reflexão e, no final, proporcionou-me uma serenidade terrena e pura, trazendo-me de volta.

Nota: 5

quinta-feira, 20 de setembro de 2012

Viagem por África - Paul Theroux



Há muito que Paul Theroux se transformou, não só num ícone da literatura contemporânea, mas também no principal criador da chamada literatura de viagens.

Neste "Viagem por África", Theroux apresenta-nos um continente africano (da cidade do Cabo no Egipto à cidade do Cabo na África do Sul) flagelado pela miséria, pela guerra, pela pobreza, pelas mudanças politicas, sociais e culturais, mas banhado por um estranho misticismo, uma força maior ligada à terra e ás gentes locais, um sentimento de paz espiritual profundo que não deixa indiferente um viajante deslocado. 

Este livro tem o cheiro de África e partilha a humildade e a pureza das populações. Muito crítico, como em todas as suas obras, o autor conta a história daqueles que há muito foram esquecidos, as gerações perdidas, o atraso tecnológico, a corrupção, as ditaduras, as epidemias, a SIDA, os desastres naturais. Tudo isto descrito de forma sublime, de um só trago, numa só palavra, inesquecível.

Nota: 5